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“Um clube vive das conquistas do presente, mas, sobretudo, das glórias do seu passado. O Vasco da Gama deve muito a seus atletas”. Dessa forma, o presidente Antônio Soares Calçada definia, no editorial do número 5 da Revista do Vasco, a importância e o respeito que o Vasco conserva pelos atletas que, ao longo dos últimos 102 anos, ajudaram a criar a mística do clube da Cruz de Malta.
Naquela edição, a Revista do Vasco rendia merecidas homenagens ao maior goleiro de todos: Barbosa. Agora é a vez de resgatar na memória cruzmaltina Edwaldo Isídio Neto, mais conhecido como Vavá, um dos maiores artilheiros da história do Vasco.
Vavá nasceu em Recife, Pernambuco, no dia 12 de novembro de 1934. Aos 14 anos, começou a jogar futebol no Sport de Recife, como amador. Ainda menino, veio fazer um teste em São Januário para a equipe juvenil do Vasco da Gama, em 1951. Era o início da história de amor com a Cruz de Malta e da vitoriosa carreira do Leão da Copa.
Pelo Vasco, Vavá marcou 191 gols na equipe principal em seis anos recheados de conquistas, quando o futebol era uma arte e o Vasco um dos seus mestres.
Hoje, aos 64 anos, Vavá mora em uma casa na Tijuca, Zona Norte carioca, com sua esposa, dona Míriam. Pai de quatro filhos e orgulhoso de seus três netos, ele afirma: “Eu tive uma vida feliz. Fiz tudo o que queria e viajei o mundo graças ao futebol”. Ainda ligado ao esporte, Vavá conta para a Revista do Vasco um pouco de sua história e fala de suas impressões sobre o futebol de hoje.
RV: Você veio de Recife para o Rio de Janeiro aos 16 anos. Como foi essa mudança na sua vida?
Em 1951, vim para o Rio fazer um teste no juvenil. Até hoje, eu não sei porque não fiz o teste com o juvenil, tendo ido treinar direto na equipe principal do Vasco, com o treinador Oto Glória.
RV: Essa era sua grande chance...
E eu até que me saí bem. No início, fiquei um pouco intimidado porque no Vasco daquela época só havia jogadores de seleção. Mais tarde, fui jogar no juvenil e fiz uma péssima campanha em 51. Mas, mesmo assim, fui convocado para a seleção carioca júnior e fomos campeões brasileiros. Em 52 participei dos Jogos Olímpicos em Helsinque, na Finlândia.
RV: Quando foi a estréia nos profissionais?
Quando voltei de Helsinque, joguei algumas partidas no aspirante e, com 17 anos, estreei nos profissionais na final do carioca de 52 contra o Bangu. Fomos campeões com um gol meu – 2 a 1.
RV: Você se sentiu pressionado por estrear em uma final de campeonato?
Era para eu ter estreado antes, mas acharam que eu tinha ficado um pouco assustado. Ia entrar contra o Flamengo, já que o Maneca estava machucado. Acharam por bem colocar o Alfredo, que já era veterano e jogava na defesa, de médio e de ponta. Me tiraram da equipe em cima da hora e me colocaram nos aspirantes. No fim de semana, fui muito bem e o Alfredo se machucou. Aí não teve jeito, era a minha vez. Quando entrei no Maracanã cheio, com 17 anos, a perna tremeu.
RV: E qual foi o segredo para parar de tremer e acabar decidindo a partida?
Não se pode ficar olhando para as arquibancadas. Para um jogador estreante se acalmar, só há uma maneira: aquecer bem e deixar passar de 10 a 15 minutos de jogo, de preferência com o apoio do jogador mais experiente que está do teu lado. Eu aprendi isto no Vasco com o Ademir, Danilo e Ipojucan.
RV: Como foi o gol do título?
Foi com um passe do Ipojucan. Ele entrou pelo lado esquerdo e cruzou a bola; o campo estava meio molhado. A sorte foi que eu tentei dominar o lance, mas a bola bateu na grama e entrou no cantinho. O goleiro ficou perdidinho, pois ele achou que eu iria dominar; o engraçado é que, de fato, este era o meu pensamento.
RV: E depois da estréia?
Depois dessa verdadeira batalha, eu engrenei nos profissionais. Quando eu comecei, o time era Barbosa, Augusto, Haroldo, Eli, Danilo, Jorge, Sabará, eu, Ademir, Ipojucan e Chico. Aí chegou o Bellini, em 53, “seu” Flavio o tirou da lateral direita e o colocou de beque central. Aí o time do Vasco ficou assim; Carlos Alberto, Paulinho, Bellini, Laerte, Orlando e Coronel, Sabará, Livinho, Almir, eu, Válter e Pinga. Este era o time em 56, uma boa equipe com jogadores brilhantes.
RV: Como era o alojamento de São Januário?
A vida era tranqüila, sem grandes problemas. Nós vivíamos no clube e saíamos pouco. Íamos às segundas-feiras ao cinema na Cinelândia. Eu tinha tudo em São Januário: dormitório, restaurante, médico... A estrutura era ótima. Eu nunca vi um jogador sequer reclamar; tudo estava à nossa disposição. Era assim: acabava o treino, eu fazia uma sauna, massagem, depois comia no clube e à noite estudava, tudo pago pelo Vasco. O Vasco nunca deixou de cumprir os seus compromissos conosco.
RV: Quem mais morava em São Januário?
Paulinho, Bellini, Coronel e alguns atletas da equipe de atletismo. O dormitório era dividido, com uma parte para os profissionais e a outra para os demais atletas. Em São Januário, nosso time também se concentrava nas vésperas de jogos.
RV: Quem eram seus melhores amigos?
Bellini, Coronel e Orlando, porque morávamos juntos. Saíamos juntos nos dias livres para almoçar, ir ao cinema. Mas também tinha amizade com Ademir, Barbosa, Augusto e Danilo.
RV: Como foi substituir o Ademir?
Ele já estava com certa idade. Por isso, Flavio Costa o deslocou para a ponta esquerda. E Ademir, que sirva de lição para os mais jovens, não reclamou absolutamente nada. Então, eu entrei na vaga de centroavante.
RV: Como foi a sua mudança do meio de campo para o ataque?
Quando eu passei para centroavante tirei toda aquela morosidade, aquele jogo tranqüilo de olhar e meter bem a bola. O principal responsável pela mudança no meu estilo foi o Flavio Costa. Ele estava constantemente em cima de mim para que eu brigasse, lutasse na área. Era o estilo de uma época. Hoje não existe mais aquele centroavante, aquele cara que briga na área, que disputa com a defesa. Além disso, existem poucos jogadores de meio que sabem enfiar bem a bola no espaço vazio. Quando você é um guerreiro que se desloca de um lado para o outro, consegue criar espaços para o meio lançar bem a bola.
RV: Qual era o seu ponto forte?
Quando eu jogava de meio de campo, metia muito bem a bola; quando fui para a posição de centroavante, não deixei de passar a bola bem, mas meu forte era cabecear e chutar bem de primeira, como o Ademir fazia. O atacante tem que finalizar antes do zagueiro chegar. O segredo é chutar a bola com o corpo curvado pra frente. Assim, você prende a bola no chão.
RV: O Flavio Costa era um treinador exigente?
Era um homem sério. Eu não posso reclamar nada dele. Às vezes ele me dava uma chamada, mas depois vinha me explicar o motivo daquilo que ele estava pedindo. Ele estava querendo incutir na minha cabeça que eu não podia afrouxar, que tinha que ser combativo. Ele vivia dizendo: “Se o Vasco é um time grande, ele não pode estar com mentalidade de time pequeno”. Ele era um homem de visão.
RV: Qual foi seu melhor ano no Vasco?
58. O Vasco foi campeão Carioca, do Rio-São Paulo e do Super-Super. Todo mundo queria jogar no Vasco. Os melhores jogadores da época, de todo o Brasil vinham para São Januário integrar a equipe do Vasco.
RV: Qual foi sua partida inesquecível pelo Vasco?
Foi contra a Portuguesa, no Pacaembu, pelo Rio-São Paulo de 1958. O Vasco jogou muito bem, vencemos por 5 a 1, com dois gols meus. Tínhamos um timaço.
RV: Qual jogo você queria que fosse esquecido?
Eu já esqueci (risos)
RV: Qual foi o seu gol mais bonito?
Quando eu jogava pelos aspirantes no Maracanã, contra o Botafogo, fiz um gol do meio-de-campo. Eu mesmo não esperava. Não chutei para encobrir o goleiro, dei um “castanhaço” fortíssimo, a bola deu uma subida e caiu de vez. Eu fiz outro desses na Espanha. Na Copa do Mundo de 58, fiz um gol muito bonito contra a França.
RV: Como era o relacionamento com a torcida vascaína na época?
Era ótimo. Não lembro de nenhuma reação contra mim ou qualquer outro jogador. A não ser do Livinho, que reclamavam de ser um pouco lento, mas era um bom jogador. Comigo, a torcida era maravilhosa.
RV: O Vasco excursionava muito naquela época. Você lembra de algum acontecimento curioso dessas viagens?
Em 53, houve uma invasão de campo. Se não fosse por um comandante do exército, a gente estaria liquidado. O povo ia acabar conosco. Tudo aconteceu por causa do Alfredo, que era muito estourado. “Seu” Flavio foi bem direto antes de colocá-lo em jogo: “Não provoque os mexicanos”. O jogo estava duro e um adversário deu uma entrada nele. O Alfredo revidou com uma cabeçada e aí todo mundo veio em cima da gente. Nós levamos uma surra danada. “Seu” Flavio deu uma bronca e mandou o Alfredo imediatamente de volta para o Brasil.
RV: Depois do Vasco, você jogou no Real Madrid, no Palmeiras, América do México e no San Diego. Como foi a sua adaptação fora do Brasil?
Eu nunca tive problema. Quando saí do Brasil, me encaixei no time espanhol direitinho por três anos. Voltei para o Palmeiras e também não tive problema. Nem no América e no San Diego. Agora, hoje o cara joga há mais de dez anos e diz, “Ainda não me adaptei”. Que é isso? Ao dinheiro, ele se adaptou! Eu acho isso infantilidade, uma desculpa esfarrapada. O jogador de futebol precisa é saber quais são suas deficiências e treinar para superá-las. O futebol é igual em qualquer lugar do mundo.
RV: Quando foi a sua estréia na seleção principal?
Em jogos oficiais foi em 58 contra a Inglaterra. Índio, Dino, Mazola e eu fomos convocados para duas posições. No final, Mazola e eu fomos convocados para duas posições. No final, Mazola ficou como titular e eu como reserva. No jogo contra a Inglaterra, eu entrei no lugar do Dida e a equipe ficou com Joel, Didi, Mazola, eu e Zagallo. Depois, o Garrincha entrou no lugar do Joel e o Pelé no lugar do Mazola. Assim, eu fui o centroavante.
RV: E o primeiro gol?
Contra a União Soviética. Fiz logo dois.
RV: Como foi em 62?
Fui um dos artilheiros do Brasil com 4 gols. Na verdade eu fiz 6, mas o juiz me anulou dois gols legítimos. Safado! Se não fosse ele eu teria sido um dos artilheiros.
RV: Como gostaria de ser lembrado?
Pelo espírito que eu transmiti jogando futebol, de mostrar que tinha prazer de jogar, que não estava ali por acaso. Que meu exemplo estimule os novos jogadores de futebol.
RV: Como é hoje a sua relação com o Vasco da Gama?
Eu não freqüento São Januário com a constância que gostaria. Já não tenho mais muita paciência para estar no estádio. Eu estou preferindo assistir pela televisão, é até melhor para ver o posicionamento.
RV: O que você gostaria de destacar no Vasco de hoje?
O Mauro Galvão, por ser um jogador sóbrio, correto e que conhece muito a posição. Ele representa bem o clube e a classe. O Pedrinho tem uma boa mobilidade, faz o time se mover, toca bem e é novo. Ele me lembra muito o Zito, do Santos e da Seleção. O Romário é um bom goleador. Para um jogador ser craque, tem que demonstrar o que o Pelé fez e que muita gente não quer enxergar hoje. Ele lutava, brigava, corria, fazia gol, armava e finalizava. Pelé fez mais de mil gols, mas dava carrinho. Nunca vi ele parar, só quando o juiz apitava.
RV: Qual mensagem você gostaria de passar a torcida do Vasco?
Que vocês se lembrem um pouco mais dos seus jogadores, não apenas os de ontem, mas também os de anteontem. Como Barbosa, Augusto, Capitão, Laerte... Cada vascaíno tem que conhecer e guardar com carinho na memória aqueles que muito honraram a Cruz de Malta. O Vasco é um clube forte que precisa preservar a sua história.
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