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Gustavo Borges
Entrevistas
Autor:
Desconhecido
Fonte:
Revista do Vasco
Data:
Maio de 2000
Comentário:
''O projeto olímpico do Vasco é excelente e com certeza, duradouro. Eu tenho o maior orgulho de participar dele e tenho a convicção que a natação vai conseguir vários títulos. O importante é fazer um trabalho com profissionais competentes e isso o Vasco tem de sobra.'' (Gustavo Borges)

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Ele é um grande atleta, não por sua altura e sim por seu talento, determinação e vontade de vencer. É um excelente pai, amigo, companheiro de equipe na Seleção e claro, um terrível rival, sempre incomodando lado a lado. Em um revezamento, é sempre bom olhar para trás e saber que ele irá nadar depois. Mando um recado a ele: vamos treinar e ganhar nossa medalha de ouro no revezamento 4x100m nas Olimpíadas. Confio em você fechando a prova... Um abraço...”


Quem assina a mensagem é o nadador Fernando “Xuxa” Scherer, que dá uma demonstração da confiança e do respeito que Gustavo Borges, um dos ídolos do esporte brasileiro e astro da natação vascaína, adquiriu dos seus companheiros e rivais de piscina ao longo da carreira.



Xuxa (destaque à dir.) fala de Gustavo: "em um revezamento, é sempre bom olhar para trás e saber que ele vai nadar depois"

Todos os dias, Gustavo segue uma dura rotina de treinos para brilhar na Austrália. Acorda às 7h e uma hora depois já está dentro d’água treinando com o técnico americano Joe Goeken. Na Olimpíada de 2000, a terceira em sua carreira, o nadador mergulhará na piscina do Sydney International Aquatic Center buscando aumentar a sua coleção de medalhas olímpicas: possui três no total, sendo duas de prata – nos 100m em Barcelona, em 92 e nos 200m em Atlanta, em 96 – e outra de bronze – nos 100m também em Atlanta. Ao seu lado, outro atleta do Vasco, o iatista Torben Grael, também pode sair da Austrália como recordista brasileiro em medalhas olímpicas. Seria o terceiro recorde em sua carreira, já que Gustavo terminou os jogos Pan-Americanos de Winnipeg, disputados no ano passado, como o brasileiro com o maior número de medalhas no total (15) e o maior ganhador de medalhas de ouro (7), ao lado dos mesatenistas Hugo Hoyama e Cláudio Kano.


Filho de dona Diva e seu Jovino, Gustavo França Borges nasceu em Ribeirão Preto no dia 2 de dezembro de 72, mesmo ano em que o americano Mark Spitz conquistou sete medalhas de ouro nas Olimpíadas de Munique. Um dia após o seu nascimento, mudou-se para a pequena cidade de Ituverava, onde cresceu e estudou até os 15 anos. Formado em economia pela Universidade de Michigan, em Ann Arbor, Gustavo encontra-se desde 97 em Jacksonville (Flórida), cidade onde vivem os pais de sua esposa, Bárbara Franco. Entre uma incursão e outra pela internet, Gustavo Borges respondeu as perguntas feitas pela Revista do Vasco. O nadador vascaíno falou sobre as primeiras braçadas na infância, na Associação Atlética Ituveravense, quando levava uma “surra” das meninas dentro d’água; do filho Luiz Gustavo; dos objetivos e treinamento para Sydney, além dos momentos mais marcantes da sua carreira.



O que mudou desde os tempos de Ituverava, quando, em 81, você ganhou a sua primeira medalha (bronze nos 50m livre) na I Olimpíada da Criança?


Muita coisa. Primeiro, eu não pensava que no futuro seria um profissional da natação. Naquele tempo, acho que nem existia investimento no nosso esporte. Quando criança, passei por um período muito bom de adaptação em todos os esportes, pratiquei cinco e escolhi a natação porque meus amigos estavam nadando. Depois fui seguindo e vi todos pararem de nadar. Os degraus até as Olimpíadas foram difíceis, mas com a ajuda da minha família tudo ficou mais fácil. Eu nem imaginava que um dia conseguiria participar de uma e muito menos ganhar uma medalha. Hoje, estou indo para mais uma Olimpíada. A natação ajudou muito na minha formação pessoal e por isso mesmo devo muito ao esporte.


É verdade que quando você tinha apenas 9 anos muitas meninas do seu grupo conseguiam vencê-lo na piscina?


Com certeza. Nesta idade é comum as meninas serem mais desenvolvidas que os meninos. Eu levei muita surra delas, mas acho que isso me motivou a treinar ainda mais.


Você praticou alguns esportes durante a adolescência, inclusive o hipismo. Como foi essa experiência? Gustavo Borges era um bom cavalheiro?


O hipismo foi interessante, só que eu estava em fase de crescimento e era difícil achar um cavalo da minha altura. Eu já gostava de cavalos e pude aprender alguma coisa a mais.


O que mudou em sua vida com a chegada do seu filho Luiz Gustavo? Em algum momento atrapalha os treinamentos?


Bom, com a chegada do meu filho a única coisa que não mudou foi a natação. No restante, tudo ficou diferente. O meu tempo livre, que antes era aproveitado com o computador, para dormir um pouco mais ou para assistir televisão, hoje é pra ficar com ele. Eu faço isso com o maior prazer e vê-lo crescer é uma alegria tão grande que já estou pronto para outro filho. É só ver se a mãe (a espanhola Bárbara Franco) vai se animar também. A Bárbara, por sinal, dá a maior força em algumas coisas que eu não costumo fazer, como acordar durante a noite para ficar com ele. Esse trabalho é totalmente dela, permitindo que eu descanse e não atrapalhe os meus treinos. Durante o dia, eu ajudo bastante, troco fraldas, dou banho...


O atleta tem altos e baixos em sua carreira. Depois de um certo nível atingido fica muito difícil melhorar um décimo que seja. Até onde você acredita que possa melhorar nos 100m e 200m?


Nos 200m, eu parei de nadar em competições de nível mundial. Eu acho que nos 100m ainda tenho algo para melhorar, principalmente na saída e na virada, que tenho treinado mais. A estratégia de prova também precisa ser melhorada um pouco. A segunda metade da prova (50m) é muito importante e requer concentração para suportar a dor do final da prova. Meu objetivo é abaixar dos 49s e disputar mais uma medalha.


Quais as suas chances e as do Brasil de ganhar medalhas?


Eu acho que todos que estão entre os cinco primeiros do ranking mundial têm chances de conqusitar medalhas. Com certeza, um pouquinho de sorte aumenta as chances. Em 92, eu estava em quarto no ranking e terminei a competição em segundo. Poderemos sair das Olimpíadas com algumas medalhas ou não, vai depender do momento.


Por que você desistiu de nadar os 200m em Sydney, prova que lhe rendeu a medalha de prata em Atlanta? O australiano Ian Thorpe é o principal responsável por essa mudança?


Se eu estivesse entre os primeiros do ranking nadaria esta prova. O problema é que tem uma turma, entre eles o Ian Thorpe, com um tempo bem abaixo do meu, o que tornaria muito difícil eu conseguir uma medalha. Outro fator é que introduziram a semifinal nas Olimpíadas. Como eu sou velocista isso me atrapalharia, já que teria que nadar três vezes.


Como está sendo feita a sua preparação para Sydney?


Estou treinando em Jacksonville e minha preparação está indo muito bem. Minha carga de trabalho é de dez treinos semanais e cinco de partes física fora d’água. Tenho várias competições preparatórias pelo caminho como o Troféu Brasil e o Campeonato Carioca, nas quais o Vasco defenderá os títulos.

Há alguns anos a natação brasileira deixou de ser esporte amador, construindo ídolos e atraindo patrocinadores. Recentemente, o Vasco confirmou essa tendência, investindo pesadamente para montar uma equipe de alto nível e também formar novos atletas. O que você acha do trabalho desenvolvido pelo Vasco na natação e de todo Projeto Olimpíco?


O projeto olímpico do Vasco é excelente e com certeza, duradouro. Eu tenho o maior orgulho de participar dele e tenho a convicção que a natação vai conseguir vários títulos. O importante é fazer um trabalho com profissionais competentes e isso o Vasco tem de sobra.


Como é a vida dos nadadores brasileiros na Flórida? Você acha essencial treinar no exterior para obter bons resultados nas principais competições?


Não é essencial morar fora para ter bons resultados. O Luiz Lima, por exemplo, mora no Brasil. O importante é estar feliz onde você treina e fazer um bom trabalho; aí o resultado vem. Aqui na Flórida, às vezes os nadadores brasileiros se encontram em competições. Apesar de estarmos no mesmo Estado nós ficamos a cinco horas de distância, uns dos outros.


Aos 27 anos, Sydney será o palco da sua despedida dos jogos olímpicos? Quais são os seus objetivos daqui pra frente?


Não sei se será a última. Enquanto eu estiver bem fisicamente e com motivação, continuo. Depois desta Olimpíada eu vou me concentrar nas competições pelo Vasco e tentar trazer o maior número de títulos possível para o clube. Quanto à próxima Olimpíada, isso eu penso depois.


O que representou para você quebrar em Winnipeg o recorde de medalhas brasileiras em jogos Pan-Americanos, num total de 15?


Foi um marco importante na minha carreira. A competição foi excelente, eu não obtive meus melhores tempos, mas fiquei muito feliz de conquistar as medalhas e quebrar o recorde. Quem sabe em 2003 virão mais medalhas?


Qual a prova mais marcante em sua carreira: os 200m de Atlanta, que lhe garantiu a medalha de prata ou o ouro no revezamento 4x100m medley de Winnipeg, resultado que quebrou a hegemonia americana na história do Pan-Americano?


Eu tenho duas provas que marcaram muito minha carreira. Uma foi a medalha de ouro no Pan-Americano de Cuba, em 91, nos 100m livre. Na ocasião, eu fiquei em quarto do mundo com o tempo que fiz e estava apenas começando a minha carreira. A prova de 200m das Olimpíadas de Atlanta, em 96, foi demais também porque eu pude comemorar a medalha dentro da água, o que não ocorreu em 92, quando eu tive todos aqueles problemas com o placar.


Ao lado do iatista Torben Grael, outro atleta vascaíno, você é o brasileiro com maior número de medalhas olímpicas, três no total. Até que ponto ter mais este recorde no seu currículo o estimula?


Estou sempre estimulado a continuar treinando. O mais importante é treinar para se superar, isso já é um passo para alcançar as medalhas e conseqüentemente quebrar recordes.

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