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De craque pra craque: Camila Pitanga entrevista Giovane Gávio
Entrevistas
Autor:
Camila Pitanga
Fonte:
Revista do Vasco
Data:
Setembro de 2000
Comentário:
''O Vasco foi o principal motivo pelo qual deixei a praia. O Vasco apareceu e me fez uma proposta. É muito bom se sentir valorizado e poder jogar em um clube de massa. Eu estou sonhando jogar no Maracanãzinho lotado de preto e branco'' (Giovane Gávio)

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O currículo dos dois é extenso. Festejada atriz de teatro, cinema e televisão, apontada como um dos maiores talentos da nova geração, filha do ator Antônio Pitanga e enteada da vice-governadora do Rio, Benedita da Silva, vascaína de quatro costados, Camila Pitanga é uma das musas cruzmaltinas. Campeão olímpico em Barcelona (92), um dos maiores jogadores brasileiros de vôlei de todos os tempos, destino certo dos gritos de fãs em cada quadra onde se apresenta, o mineiro Giovane Gávio é o grande destaque do time recém montado pelo Vasco e estará em Sydney, com a seleção. Para promover o bate-papo entre os dois, a Revista do Vasco escolheu um dos mais belos locais do Rio: o Jardim Botânico. Entre autógrafos a alunos de um colégio que excursionavam pelo parque e brincadeiras com os filhos de Gigio, Giulia e Gian Marco, os musos vascaínos conversaram sobre esportes, assédio dos fãs, rotinas desgastantes, e é claro, Vasco, muito Vasco.

Camila Pitanga: Como atriz, eu tenho que ser muito disciplinada e cuidar o tempo todo da voz e do corpo. Imagino que, para atletas de alto nível, os cuidados não devam ser menores...

Giovane Gávio: Quando se trabalha em alto rendimento, nós usamos o corpo no limite. Temos uma série de preocupações. Primeiro, a alimentação, que tem um papel fundamental no desempenho de um atleta. O descanso também é fundamental.

C: É tudo cronometrado? Tem horário para tudo?

G: Cada atleta tem a sua forma de agir, que acaba se refletindo no seu desempenho. No meu caso, procuro me educar com a alimentação e com o descanso. Muito importante também é a preparação psicológica, pois é necessário estar sempre superando limites e suportando muita dor. É preciso ter determinação para seguir treinando quando já acordamos cansados, com dores pelo corpo da série de treinamentos da véspera. Para ter esta força de vontade, é preciso de concentrar, relaxar, ler bons livros.

C: Que tipo de livro você lê?

G: De auto-ajuda, com mensagens que nos levam a transpor barreiras. Além da leitura, procuro também outras formas de diminuir a ansiedade. Recentemente, comecei a fazer ioga e meditação. O vôlei é um esporte que requer muita concentração. No futebol, tem momentos que a bola pára no chão. No vôlei, não dá pra relaxar, tudo acontece muito rápido. Com a bola no ar, o atleta precisa estar sempre ligado; se perder a concentração, a bola pode cair em sua quadra ou não ir aonde se quer que ela vá. Com a meditação, o jogo, para mim, começa meia hora antes de entrar em quadra, quando começo a mudar de roupa. Desde pequeno, sonhava com o momento do vestiário. O ritual de colocar a camisa da seleção brasileira é mágico.

C: Você sempre pensou em ser um atleta?

G: Desde menino. Tinha uma propaganda de uma marca esportiva, na época patrocinadora da seleção brasileira, com um jogador se trocando para jogar. Aquela imagem ficou na minha mente como um sonho, um objetivo a ser alcançado na minha vida. Eu insisti até chegar lá.

C: Eu fui criada nos sets de filmagens, não como atriz, mas acompanhando e observando o meu pai. Naquela época, eu ainda não tinha essa convicção, a certeza de que um dia seria atriz. Admiro pessoas que, como você, têm os objetivos claramente definidos desde cedo.

G: Só que é preciso ter cuidado para não se cansar antes de alcançar o objetivo. Em setembro, completo 30 anos e já começo a sentir o impacto do esforço de todos esses anos nos joelhos e na coluna.

C: Mas 30 anos não é tanto tempo assim...

G: Para o atleta, é. Eu me programei para jogar mais cinco anos de vôlei, no máximo. Depois começa a ficar muito difícil aguentar o ritmo de dois treinamentos diários.

C: Eu conheço bailarinas que chegam a modificar o próprio corpo para atingir determinado passo, à custa de muita dor. Como é que vocês se acostumam com a dor?

G: No esporte olímpico, a gente é praticamente obrigado a suportar a dor. No vôlei, se você sente uma dorzinha, joga assim mesmo. Se realmente não tiver condições, é claro que pára. Agora, na seleção brasileira, onde estão envolvidos o amor e vontade, a gente fica quieto e suporta a dor mais ainda.

C: Ela acaba fazendo parte da rotina, não é?

G: A minha preocupação é com o futuro. Depois que o vôlei acabar, eu tenho mais algumas décadas de vida. O problema não é em termos financeiros, é com o meu corpo, mesmo. O que vai ser de mim quando tiver 60 anos de idade?

C: O que você faz para evitar este desgaste físico e os danos permanentes ao seu corpo?

G: Eu estou fazendo um trabalho gradual de preparação para garantir a minha qualidade de vida depois de deixar as quadras.

C: E quais são seus planos? O que você pretende fazer quando deixar o esporte?

G: Quando se passa a vida - no meu caso, dos 12 aos 35 anos - dentro de uma quadra, todo o resto fica em segundo plano. O que a gente sabe fazer é jogar vôlei.

C: Você pensa em voltar a estudar?

G: Com certeza! No ano que vem, retomarei os estudos. Eu acho que as pessoas precisam estudar a vida inteira. Os atletas vivem uma realidade diferente, com outro tipo de cobrança e com toda a energia concentrada em uma outra direção. O problema é que, quando paramos de competir, normalmente estamos muito despreparados para esta nova vida.

C: Você lida bem com o assédio da mulherada?

G: A gente se acostuma. Depois do ouro olímpico de Barcelona, houve momentos difíceis de segurar.

C: Deve ter sido uma loucura...

G: Mas é muito gostoso. Veja o que está acontecendo agora. Eu saí do vôlei de quadra em 97 e decidimos – eu e Tande – jogar na praia.

C: O público não se sentiu traído?

G: Mas a gente estava defendendo o Brasil do mesmo jeito. Só que, como o mundo do vôlei de praia é menor, nós aparecemos menos. Todo mundo achou que eu tivesse parado por não estar jogando pela seleção brasileira. A volta está sendo uma grande satisfação para mim. Estou ouvindo de muita gente palavras de incentivo: “Que bom que vocês voltaram. Vamos lá”. É gostoso.

C: E por que você voltou?

G: Eu sentia falta da seleção brasileira.

C: As pessoas gostam de rotular, dizem que você é um jogador de vôlei de quadra e ponto final. No caso do artista, é a mesma coisa. Se uma atriz começa a cantar, já perguntam 'Mas o que é que ela vai fazer como cantora?'

G: Eu senti um pouco deste preconceito. As pessoas achavam que eu ia à praia para tomar sol, ficar bronzeado e ter vida boa. Mas o treino era muito pior.

C: Como foi o início?

G: Comecei praticamente do zero. Nos primeiros seus meses, a gente perdia para a última dupla do ranking. Imagina: sair do topo, cair para o fundo e ter que recomeçar perdendo para quem não tinha a mínima expressão. Mas foi ótimo. Pena que a gente não atingiu o nosso objetivo, que era ir para Sydney pela praia. Mas agora eu vou buscar a medalha pela quadra.

C: Como foi a tua vinda para o Vasco?

G: O Vasco foi o principal motivo pelo qual eu deixei a praia. Apesar da vontade de jogar na seleção brasileira, depois das Olimpíadas eu ia voltar para a areia. Já tinha contrato assinado e tudo. Mas, analisando agora, eu vejo que realmente me sinto melhor na quadra. Eu ia ser feliz na praia, mas não completamente. Ia acabar até atrapalhando o Tande. O Vasco apareceu e me fez uma proposta. É muito bom se sentir valorizado e poder jogar em um clube de massa. Eu estou sonhando jogar no Maracanãzinho lotado de preto e branco.

C: A torcida vascaína é muito calorosa.

G: Eu já joguei lá com a seleção brasileira. Mas imagina a final do campeonato brasileiro com a torcida toda gritando “Vasco, Vasco, Vasco”. Deve ser, guardadas as proporções, como jogar no Maracanã. Agora, quando eu vou assistir aos jogos, fico olhando para a torcida gritando. Aquilo é maravilhoso. O atleta amador não tinha isto. Agora, no Vasco, isso é nossa nova realidade.

C: Quando você estréia pelo Vasco?

G: No fim do ano, porque, agora, todas as atenções estão voltadas para os Jogos Olímpicos. Em outubro, começam os treinamentos e o Campeonato Carioca.

C: Você está feliz?

G: Muito. Estou muito contente com tudo isso que está acontecendo. Agora, tenho é que retribuir. O que eu posso dizer é que eu estou treinando muito, até mais do que quando eu comecei a jogar vôlei. O momento é muito importante e os resultados vão aparecer.

C: Como brasileira e vascaína, só tenho a te desejar toda a sorte do mundo.

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