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De craque pra craque: Zelito Viana entrevista Amaral
Entrevistas
Autor:
Zelito Viana
Fonte:
Revista do Vasco
Data:
Junho de 2000
Comentário:
''Eu quero é honrar a camisa do Vasco, um clube que me abriu as portas, com uma das melhores estruturas que já tive. Em São Paulo, fala-se muito que no Rio não se trabalha. Aqui no Vasco se trabalha mais do que lá.'' (Amaral)

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Um é carioca, poeta das telas de cinema e vascaíno até a raiz dos cabelos. O outro, paulista, de 27 anos, guerreiro na vida e encarna, como poucos, a alma vascaína. Zelito Viana, que está em cartaz nos cinemas com o longa-metragem "Villa-Lobos", recebeu em sua casa, no Cosme Velho, o incansável cabeça-de-área Amaral para uma conversa muito bem humorada, que a Revista do Vasco traz pra você.

Zelito Viana: Você tem apelido?

Amaral: Amaral.

ZV: Não é seu nome?

A: Meu nome é Alexandre da Silva Mariano. O meu avô disse que quando eu era pequeno, jogavam no Corinthians o Amaral e o Biro Biro. Meu primo, que era louro, era o Biro Biro e eu, o Amaral. Quando fui vendido pra Itália, eles queriam colocar na minha camisa "Mariano". Aí eu disse, "Mariano não!"

ZV: Como é que você começou no futebol?

A: Comecei graças a um primo, que tinha amizade com o Facchina (ex-presidente do Palmeiras) e conseguiu marcar um teste para mim.

ZV: Você jogou em várzea?

A: Jogava na rua, em Capivari. Antes de chegar ao Palmeiras, eu fiz um teste no São Paulo, indicado pelo Zetti, que também é de Capivari. Eu fiquei lá, mas na época tinha que treinar e trabalhar.

ZV: Quantos anos você tinha quando chegou ao Palmeiras?

A: Foi em 92, eu tinha 19 anos.

ZV:Você começou tarde, então?

A: É verdade, mas sempre fui vencedor. Joguei um ano como júnior pelo Palmeiras. Nós fomos campeões depois de um jejum de 27 anos. Subi para o profissional e ajudei a quebrar outro jejum, que durava 17 anos. Na final contra o Corinthians, disseram para o Luxemburgo não me escalar porque eu ia tremer. Ele respondeu: ''Não vai, não. Quem pegava defunto não treme fácil''.

ZV: Onde você trabalhava???

A: Na funerária. Pegava defunto, mesmo!

ZV: Nas peladas, você era escolhido em primeiro lugar? Você é o tipo de jogador que, no par ou ímpar, eu escolheria primeiro.

A: Eu tinha azar. Os caras não me deixavam jogar. Eu era muito pequenininho e queria jogar com os caras de trinta anos. Eles diziam que eu ia me machucar.

ZV: Nas folgas você ainda joga pelada?

A: De atacante. E, pode acreditar, sou matador!

ZV: Você já conseguiu dar uma boa vida para a sua família?

A: Já. A minha mãe sofreu muito. Se, antes, ela era quase uma escrava, hoje, eu a faço uma rainha. Na minha infância, a gente não tinha onde morar. Nem o que comer. Cheguei a passar muita fome. Para comprar carne, o açougueiro deixava um pouco de carne no osso e dizia “mais tarde, a dona Rosália vai passar aqui”. Eu chupava o osso. Mesmo quem não gostavam de mim, hoje eu procuro ajudar. Jesus já sabia, desde o ventre da minha mãe, o quanto eu ia sofrer, e me deu a oportunidade de crescer.

ZV: Você tem irmãos?

A: Não. Sorte minha, senão iam estar na minha cola. (risos)

ZV: Você já jogou machucado?

A: No Benfica, em 98, eu estava com dores no pé, fiz um raixo x e descobri que ele estava quebrado em três pontos. Precisei levar uma anestesia para jogar uma partida decisiva. Eu não sentia o meu pé no chão. Depois que me recuperei, ele não quis me colocar de novo no time. Aí, disse que ele estava de perseguição comigo; ele não gostou e me afastou. Falei com o professor Luxemburgo e voltei para o Brasil. Não pensei no dinheiro e, sim, na minha saúde.

ZV: Como foi a sua volta para o Brasil?

A: No Corinthians, eu passei um pouco de dificuldade no início, já que e não tinha oportunidade. Fui campeão Paulista e Brasileiro e pensei em voltar pra Portugal, mas o Vasco já tinha demonstrado interesse em me contratar...

ZV: O Vasco já comprou o seu passe?

A: Não, estou emprestado.

ZV: De quem é o seu passe?

A: Do Benfica e o contrato termina em junho.

ZV: Você vai renovar?

A: Não sei. Parece que o Benfica quer o Júnior Baiano e pode ser que eu entre na troca. Eu não sou de ficar comentando sobre o passe. Se o contrato é até amanhã, vou estar honrando até o último dia. Depois, a gente conversa. Tem jogador que, no meio do contrato, fala que só fica se ganhar um milhão... Eu não. Se merecer cinqüenta, é isso que eu vou ganhar. É tudo questão de confiança. Eu quero é honrar a camisa do Vasco, um clube que me abriu as portas, com uma das melhores estruturas que já tive. Em São Paulo, fala-se muito que no Rio não se trabalha. Aqui no Vasco se trabalha mais do que lá.

ZV: Você já se mudou para o Rio?

A: Eu moro na Barra, mas minha família ainda está em São Paulo. É bem pertinho, eu vou e volto rapidinho. Para a minha esposa é mais fácil. Lá, ela tem a ajuda da mãe para cuidar dos nossos filhos – uma menina de dois meses e um garoto, de dois anos.

ZV: Não senti firmeza. Quer dizer que você ainda não é vascaíno. Corremos o risco de perder você para um time de São Paulo?

A: Não. Se o Vasco comprar o meu passe, eu trago a família.

ZV: Na seleção do Zagallo, você avançava muito e ele te mandava ficar. Você gosta de avançar?

A: Eu sou um elemento surpresa. Meu objetivo é desarmar e entregar. Contra a Argentina, eu dei o passe pro Donizete marcar o gol e o Zagallo gritou “Fica! Não passa mais do meio de campo”. No Palmeiras, o Luxemburgo disse “se você passar do meio de campo, eu vou te tirar do time.” A questão é que eu fico na ansiedade de chegar aonde a bola está. A bola está na frente, eu estou lá; está atrás, eu vou atrás.

ZV: Você sabe que, se treinar chutes de fora da área, vai marcar muitos gols...

A: Eu treino bastante. Quando comecei no Palmeiras, eu tinha dificuldade de passar a bola. Quanto eu cheguei ao Vasco, falei com o Alcir Portela para, no final do treino, pegar umas dez bolas para ficar chutando. Ela vai acabar entrando. Eu acho que o jogador não pode se acomodar com o que tem. Se a minha característica é marcar, eu tenho que aprimorar o passe, o chute, o drible, para me tornar um jogador completo. Até hoje, jogador completo, só o Pelé.

ZV: E o Ronaldinho?

A: Falam do Ronaldinho como o melhor do mundo, mas ele tem, por exemplo, uma grande dificuldade de fazer gol de cabeça.

ZV: E nem chuta com as duas, como Pelé fazia...

A: O Ronaldinho é muito bom, mas tem que se aprimorar.

ZV: Você acha que está no auge da sua carreira, hoje, no Vasco?

A: Eu acho que o esquema tático tem feito com que eu me sobressaia, mas, no Palmeiras, eu também tive uma passagem brilhante.

ZV: Na verdade, a diferença é que você está chutando mais. A torcida está doida para ver um gol seu.

A: É para isto que eu venho treinando bastante, eu não tenho que sair lá de trás para resolver na frente. Lá tem o Romário, o Edmundo, o Viola e o Pedrinho, mas sempre pode surgir uma oportunidade.

ZV: Você fazia mais gols antes?

A: Até hoje, só fiz dois.

ZV: Na vida?

A: Um gol contra o Grêmio. Foi 5 a 4 e até eu fiz gol. O outro foi contra o Santos. Eu ainda estava no Corinthians. Eu sou tão pouco chegado em fazer gol que, quando eu chutei a bola, o meu pé virou.

ZV: A gente vai gritar gol do Amaral logo, logo. A característica que eu mais gosto em você é a de levar um drible e não se incomodar. Isto é coisa que o jogador brasileiro não faz. Ele finge que não levou, quer bancar o malandro e não vai mais. Você, não. Leva e volta até tomar a bola. A não ser aquele famoso do Romário.

A: Aquele, não deu para voltar, não...

NR: Na semana da entrevista, Amaral marcou o seu primeiro gol pelo Vasco, contra o Olaria.

ZV: Você está gostando do ambiente do Vasco?

A: Eu gosto. É muito bom.

ZV: O time do Vasco passou a correr mais com você, como aconteceu na época do Dunga. Os jogadores ficam constrangidos em “chupar-sangue”.

A: Eu sempre falo que um tem que puxar o outro. Cada um tem a sua característica, a minha sempre foi marcar e correr muito. Se não fosse pelas minhas pernas, estaria na funerária até hoje.

ZV: Vocês dão bronca no Felipe durante o jogo?

A: Não. A gente só fala para ele não reclamar com o juiz, nem para levar a falta e parar. Mas ele é craque.

ZV: Quem é o xerife no Vasco?

A: O Galvão, o Romário... Mas todo mundo fala no Vasco hoje, ninguém fica calado. Naquele time do Palmeiras, isso não acontecia. Se falasse, sabia que ia dar briga.

ZV: Qual a diferença entre o Abel e o Lopes?

A: O Abel é mais amigo, está sempre perto do jogador. O Lopes é mais reservado. Hoje, para ser treinador em um clube, ele não pode ser durão mas tem que se impor. Ao mesmo tempo que tem que estar do lado dos cartolas, tem que estar do lado dos jogadores. O Abel é assim. Ele chegou e colocou o Nasa, que está jogando bem, o próprio Paulo Miranda. Todo mundo está satisfeito com ele.

ZV: Eu acho que o Abel fez com que o Paulo Miranda evoluísse muito. Se ele quiser ficar na lateral direita, vai para a seleção.

A: E o Pedrinho? Este menino é bom!

ZV: O Abel ensaia jogadas?

A: Muito.

ZV: O time está com mais conjunto?

A: Não é simplesmente mais conjunto. Eu acho, sem querer prejudicar o professor Lopes, que é um grande treinador, que, mesmo antes do Mundial, já era preciso mudar. Ele já estava ali há muito tempo, alguns não o respeitavam mais... Ele já não dava mais oportunidade e os jogadores se acomodaram. Com o Abel, aconteceu o que o “seu” Eurico queria, a volta da alegria. O pessoal, que antes ia ao treino de cabeça baixa, sem saber se ia jogar, agora tem a certeza de que, quem treina bem, joga.

ZV: O meu time é Helton, Paulo Miranda, Odvan ou Baiano, Galvão e Felipe, Amaral, Alex Oliveira, Juninho, Pedrinho, Edmundo e Romário.

A: É bom, viu?!

ZV: O Eurico é bom dirigente?

A: É. Se ele fosse da CBF, o Brasil teria sido penta. Tudo o que está na frente dele é Vasco.

ZV: Eu vi uma entrevista que achei um barato. Ele dizia que o compromisso dele não era com eleitor, e sim com o Vasco.

A: Acho que todo jogador queria ter um dirigente como ele.

ZV: Como ele é no trato com os jogadores?

A: Ele sabe o momento certo de ser duro ou carinhoso.

ZV: Você quer voltar para a seleção?

A: Eu quero. Mas eu penso primeiro o Vasco. Se eu chegar à seleção, terá sido graças ao Vasco. Tem muito jogador que pensa na seleção e não no seu próprio clube. Mas eu chego lá.

ZV: Quais são os seus planos para o futuro?

A: Ganhar a Taça Rio para ser campeão estadual, sem jogo extra.

ZV: É o que todo torcedor quer. Boa sorte!

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