_______________________________________________________
O Caldeirão de São Januário já foi palco de muitas conquistas no futebol e de celebrações históricas para o nosso país, como a assinatura da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), pelo presidente Getúlio Vargas, em 1943. Continua sendo o cenário ideal para os grandes acontecimentos. Em abril, quando completou 83 anos de glórias, ele recebeu o ator Rodrigo Santoro para uma entrevista exclusiva à Revista Oficial do Club de Regatas Vasco da Gama. Por seus papéis marcantes na TV e no cinema, Santoro já mereceu diversos elogios de crítica e de público e, apenas pela intepretação em Bicho de sete cabeças, ganhou oitro prêmios. A carreira se consolida a cada trabalho e a visibilidade nas telas internacionais é uma realidade, com atuações em As Panteras - 2 e Che, onde interpretou Raul, o irmão de Fidel Castro. Hoje, se dedica aos ensaios e gravações de Heleno de Freitas, filme sobre a vida do genial e polêmico ex-jogador, que começou a ser produzido em 2009 pelo diretor José Henrique Fonseca.
O nosso bate-bola foi marcado para as 9h30 da manhã de 23 de abril, em pleno feriado carioca de São Jorge. Dia e horário não foram escolhidos ao acaso, mas sim, porque logo após a nossa conversa aconteceria mais um dos inúmeros treinamentos que foram realizados com o ator e vários jogadores, para a produção do filme. Pois é, vida de artista não é só fama, como muitos supõem. Ele treinou à exaustão para as filmagens de seu mais recente trabalho. Com sol ou chuva. E até mesmo em dia santo.
Rodrigo Santoro foi extremamente pontual - mais adiante, você saberá que este é apenas um dos traços do seu marcante perfil profissional. Chegou tranquilo a São Januário, naquela abafada sexta-feira, e logo foi cumprimentar todos os integrantes da produção, os atores que têm participado do ensaio do filme e a equipe da Revista do Vasco. Consciente de que a noite não tinha sido das mais repousantes, logo perguntou ao nosso fotógrafo, com muito bom humor, como seriam as fotos, alegando que não estava em seus melhores dias para isso. "Vamos fazer, mas acho que não vou poder ajudar muito, porque estou com cara de sono", disse, com franqueza. Exagerada, diga-se de passagem. Ou melhor, você mesmo pode confirmar se as imagens, feitas sem qualquer tipo de maquiagem e apresentadas sem edição, estão aprovadas ou não.
A sessão começou minutos após a chegada de Santoro e, apesar da dita "cara de sono", tanto a experiência como a simplicidade do "modelo" ajudaram a tornar o trabalho descontraído e produtivo. Cantarolando enquanto era clicado pelas lentes, não fez qualquer esforço ao posar, chegando a brincar ao ver uma das fotos: "Nossa, nessa aqui estou com uma cabeça estranha, por causa do meu cabelo", comentou com o fotógrafo: "Dá pra não usar essa, né?"

Por sugestão do próprio Santoro, a entrevista iniciada de bate-pronto foi feita no vestiário, onde ainda se encontravam alguns atores que, entre conversas animadas e risadas, acabavam de se aprontar para o treino. Assim que entramos, ele assumiu um ar grave e disparou em alto e bom som: "Galera, dá pra deixar a gente sozinho aqui um pouco? Assim não consigo dar a entrevista." O silêncio nos segundos iniciais que sucederam a declaração logo foi substituído por estrondosas gargalhadas. De todos, inclusive nossas. Depois, ele emendou: "Agora, quem está falando é o Heleno e não o Rodrigo." E com um senso de humor apurado, ainda explicou: "Se eu não pedir licença, fica muita bagunça." Antes de prosseguirmos, a pedido de um dos atores, ainda concedeu um minuto do tempo regulamentar para trocar ideias, explicando qual o tom que existe entre os dois, no filme.
E por falar em Heleno de Freitas, Santoro, um apaixonado por futebol, foi apresentado a esse projeto há cerca de cinco anos. Escolhido para interpretar o papel do ex-jogador, se surpreendeu e se encantou com a história singular de um gênio que se diferenciava de todos os demais atletas de sua época. "Não conhecia a história do Heleno e, quando soube da personalidade dele, fiquei intrigado", explica. "Está sendo difícil gravar, porque ele tinha um gênio muito forte; era considerado um jogador temperamental. É um grande desafio, por isso, tenho estudado o máximo possível para fazer uma composição idêntica à do personagem", conta.
Para quem não conhece a vida de Heleno, vale situar que, originário de família abastada, se formou em Direito e resolveu jogar bola por lazer, já que não precisava trabalhar. Entretanto, o que ele fazia apenas por diversão, virou a carreira, que o levou a passar por vários clubes de futebol: Botafogo, Vasco, Boca Juniors (Argentina), Atlético Júnior de Barranquilla (Colômbia), Santos, América e, também pela Seleção Brasileira. Apesar do extenso currículo, Heleno ganhou apenas um único título nos seus 12 anos de carreira, em 1949, quando conquistou o Campeonato Carioca pelo Vasco, com o célebre Expresso da Vitória.
Buscando a semelhança mais próxima com o personagem, o astro vai gravar todo o filme com uma bola cenográfica e uma chuteira da época. Segundo ele, treinar com a bola original não é nada fácil. Por ser uma réplica usada nos anos 1940, ela é mais pesada que as de hoje em dia. "Começamos com a normal, mas quando chegou a antiga - nossa mãe! -, percebi como é pesada", comenta Santoro, que ainda sugeriu para nossa equipe que a fotografasse para a revista. Contudo, lembrou que a esquecera em casa. "Falei para não deixarem a bola comigo", brincou com um dos produtores.
O divertido vai para escanteio, quando fala sobre as gravações para valer do filme que, segundo ele, é um grande desafio na sua carreira. "Heleno nunca foi um cara que driblava todo mundo, mas jogava com muita elegância", analisa. "Tenho de ficar atento a todos os detalhes e quando estiver em cena, com certeza, vou fazer com toda a minha paixão", garante, empolgado.
Em construção...
_______________________________________________________ |