_______________________________________________________
De maneira geral, ninguém espera que intelectuais gostem de futebol. Mas Ferreira Gullar dá um drible no preconceito e se revela um cruz-maltino de quatro costados. O poeta e crítico de arte, que deve lançar nas próximas semanas seu mais recente livro de poemas inéditos (Editora José Olympio), foi um de tantos garotos que gostam de bater bola na rua e torcer por seu time. E que hoje guarda memórias tão bonitas e surpreendentes quanto seus melhores poemas, como dos improváveis amigos Esmagado e Espírito da Garagem da Bosta, além do célebre Canhoteiro, ponta-esquerda injustamente afastado da Seleção de 1958. Gullar costumava frequentar os estádios de São Luís, nos ombros do "center forward" Newton Ferreira e acompanhar os jogos pelo rádio, antes de o eletrodoméstico ser expulso pela tevê, da sala para a cozinha. "Sou vascaíno desde os 10 anos de idade", conta esse apaixonado por futebol, que tem a obra iluminada pelos campos de várzea do seu Maranhão. Coloquial, bem-humorado e com inteligência cada vez mais afiada, analisa o esporte e a influência lusitana dentro do universo cultural brasileiro. Ferreira Gullar demonstra que a poesia não é alheia a nada da vida. Muito menos ao futebol.
Como você passou a se interessar por futebol?
Meu pai era amigo do jogador Newton Ferreira, que cito no Poema Sujo [num verso sobre o desaparecimento das pessoas no mundo, Gullar escreve que "(...) de Newton Ferreira, ex-center forward da seleção maranhense, não há nenhum traço (...)'']. Ele jogava no Luso-Brasileiro, nas décadas de 1920 e 1930, tinha uns 20 e poucos anos. Uma vez, me contou uma história de que veio ao Rio nos anos 1930, como integrante da seleção maranhense que jogaria com a carioca. E a seleção foi recebida por Washington Luís, tá entendendo? Eles jogaram e perderam de 9 a 0. Isso, depois de almoçar com o presidente da República!
Foi com ele que você aprendeu a jogar bola?
Ele foi comerciante na Rua da Alegria, perto da nossa casa. E me carregava nos ombros para os jogos nos estádios. Comecei a jogar futebol garoto, na rua. E um de meus parceiros era o Canhoteiro [José Ribamar de Oliveira, temível ponta-esquerda que jogou pelo São Paulo e pela Seleção Brasileira], filho de um barraqueiro que vendia mingau no Mercado Novo, onde meu pai tinha uma quitanda. De manhã cedo, quando eu ia pro colégio, tomava mingau de milho ou arroz ali, antes de pegar a condução, em frente ao mercado, que me levaria para a Escola Técnica.
Vocês jogavam juntos?
É, nós jogávamos bola numa área cimentada desse mercado, onde os caminhões deixavam as mercadorias, e que ficava livre boa parte do tempo. A gente usava umas bolas de borracha. E a vocação é indiscutível, tá entendendo? Ele [Canhoteiro] era um gênio! Fazia o diabo com a bola e driblava todo mundo, com um toque de bola no pé e outro, no chão. Era impossível tomar a bola dele.
E como você jogava?
Eu era um perna de pau. Joguei, depois, no Sampaio Correa, no infantil e no juvenil, até que me deram um chute na bunda que doeu pra burro. Parecia que tinham me quebrado. Sai na hora certa.
E continuou como torcedor?
É, ia aos jogos, já rapaz. Havia dois estádios em São Luís: o campo do Maranhão Futebol Clube, que ficava na Rua do Passeio e era uma das principais atrações da cidade - lembro que ele tinha um muro muito grande; e o outro, ficava na continuação da Fabril, uma fábrica que tinha lá. Naquele tempo, eu ignorava que me tornaria poeta. Achava que todos os poetas já tinham morrido. Antes de me meter nesse negócio, eu tinha meus companheiros de futebol, como o Esmagado e o Espírito da Garagem da Bosta.
Quem?! [risos]
Em frente à nossa casa tinham dois garotos que consertavam bicicletas e motos, com quem todo mundo se dava. Um deles era o Maninho, que depois virou o Espírito da Garagem da Bosta. O pai deles era barbeiro. Um dia, o Maninho fez uma estripulia e foi se esconder na garagem. Como era bem pretinho, quando o irmão foi procurá-lo, só viu dois olhos brancos no meio daquele preto da garagem. Então, disseram que parecia alma do outro mundo. E Garagem da Bosta porque lá não tinha sanitário e os irmãos cagavam em cima de folhas de jornal e, depois, jogavam o jornal da bosta em cima da garagem. Foi assim que surgiu o Espírito da Garagem da Bosta [risos].
E o Vasco, como chegou até você?
Todo mundo tinha time de botão. E era botão mesmo, que a gente lixava para poder jogar. Especialmente os de paletó, tinham a borda mais saliente que atrapalhava o controle com a palheta. Então, a gente tinha de ficar tirando aquele ressalto para a palheta atender ao comando e o botão correr direito. Meu pai ouvia os jogos pelo rádio, o que era bem usual. E também comprava uma revista do Rio - acho que se chamava Vamos Ler - que publicava, a cada duas semanas, uma reportagem sobre um time de São Paulo ou do Rio. Quando preparei meu novo time de botão, saiu uma edição que falava sobre o Vasco, vinha com sua história e uma síntese do que estava ocorrendo no Campeonato Carioca. Coincidiu. "Bom", pensei, "então meu time vai ser o Vasco". Peguei a lista dos jogadores e botei seus nomes no meu time de botão. Até bem pouco tempo, me lembrava de cada jogador.
Era comum todo mundo no Norte e no Nordeste do país torcer por um time do Rio e de São Paulo, não?
Todo mundo torcia. Na minha roda, tinha quem torcesse pelo Palmeiras, São Paulo e Vasco. A gente torcida pelo Sampaio Correa ou o Maranhão Esporte Clube, mas também por um time do Rio ou de São Paulo. A simpatia, no meu caso, era porque meu pai simpatizava com o Vasco. Ele era filho de portugueses e minha avó já veio ao Brasil com ele na barriga.
A influência portuguesa é muito forte no Maranhão?
Muito. Porque o Maranhão foi fundado em 1612 por franceses, mas como São Luís ficava mais perto de Portugal do que o Rio de Janeiro, a colônia portuguesa foi muito grande por lá. Os grandes escritores brasileiros costumavam estudar Direito em Coimbra, como Gonçalves Dias e Odorico Mendes. O igualmente maranhense Francisco Sotero dos Reis escreveu a primeira gramática da língua portuguesa editada no Brasil e deu uma nova cara à inteligência brasileira, ao escrever sobre a Setembrada e a Balaiada, revoluções ocorridas no Maranhão. Seus textos são o início dos estudos sociológicos no Brasil. Então, a ligação entre o Maranhão e Portugal era muito grande, tanto que o Estado tentou resistir à independência e Caxias teve de ir pra lá sufocar a rebelião.
Quando você veio para o Rio de Janeiro, continuou a torcer pelo Vasco?
Fiquei muito tempo ligado ao Vasco. Em 1951, cheguei ao Rio e vi muitos jogos no Maracanã, que era um estádio recente. Na Copa de 1950, ainda não estava concluído, ouvi aquela tragédia pelo rádio. Depois, casei com uma carioca e ela contou que foi ao jogo e assistiu àquela tristeza. Fui mais algumas vezes ao Maracanã, mas depois, com minhas ocupações como poeta e crítico de arte, acabei me afastando cada vez mais. Ia esporadicamente, mas passei a participar de uns almoços, aos domingos, com artistas discutindo exposições.
Chegou a ter camisas do Vasco?
Nunca. Não lembro de ninguém ter camisas naquele tempo. Isso veio com a televisão.
E como jornalista, você chegou a trabalhar com futebol?
Cheguei a trabalhar na Rádio Timbira do Maranhão como locutor, mas não de futebol. Uma vez, não sei por que razão, fui destacado para acompanhar a equipe que fez a transmissão de um jogo. O speaker era uma especialiazação [emposta a voz]: "Royal Briard, o perfume que deixa saudades." Mas aí, eu percebi o seguinte: o cara narrava o jogo atrasado, porque se o cara fosse mais rápido do que o jogo, ficaria sem ter o que falar. E ele não pode parar. Então, narra atrasado.
Por que você escreveu O Gol, dedicado ao futebol?
Foi um pedido daquele menino, o Elio Gaspari. Ele me telefonou porque pretendia dedicar uma coluna ao futebol e queria publicar poemas com o tema. Expliquei que nunca tinha feito poema específico para o futebol, pedi um tempo e que depois me ligasse. E pensei em escrever um poema sobe momento decisivo do futebol. E qual é? O gol. Esse poema não tá em livro algum meu. Fiz o poema e perdi o texto. Fui achar muito tempo depois, na coluna impressa.
_______________________________________________________ |