_______________________________________________________
São 68 anos de vida e 50 de carreira. Nesse tempo, foram mais de 500 músicas compostas e 19 discos gravados. Muitos artistas já interpretaram suas canções, sendo o companheiro e parceiro Roberto Carlos o mais fiel e frequente deles. Mesmo sem o subtítulo ali de cima, ficaria fácil adivinhar que estamos falando do "nosso amigo" Erasmo Carlos. "Nosso amigo", naturalmente, é uma intimidade que ouso ter, em nome de uma das suas maiores paixões: o Vasco. Afinal de contas, foi para falar do Gigante da Colina que ele recebeu a Revista Oficial do Club de Regatas Vasco da Gama em sua ampla e confortável casa, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro.
Enquanto aguardamos Erasmo terminar mais uma das numerosas entrevistas que vêm ocupando sua agenda - principalmente para falar do novo CD, Rock'n'roll, e do livro Minha fama de mau, recém-lançado -, nosso fotógrafo aproveita para registrar imagens de algumas das dezenas de objetos que têm referências ao Vasco. Apesar de existirem por toda a casa, Erasmo guarda a maioria num dos quartos, utilizado como escritório e onde, pouco depois, ele entra. Após os gentis cumprimentos, trata logo de dar um importante aviso: "Bicho, esta vocês não podem deixar de fotografar", diz, apontando para uma velha bandeira cruzmaltina. "Porque é o que eu mais amo aqui dentro! A bandeira está assim, meio desgastada, porque carrega suor, lágrimas e muitas vitórias; ela tem histórias de vários campeonatos, nesses mais de 30 anos em que está comigo", enfatiza.
Por falar em enfatizar, voltemos à entrada de Erasmo no escritório. Sim, porque é preciso fazer o registro desse momento. Creio que seja absolutamente impossível não se impressionar com tamanha imponência. Antes de me levantar para cumprimentá-lo, a visão que tive foi a de um gigante vindo em minha direção, com passos lentos e usando a indefectível pulseira, uma de suas marcas registradas. Naquele instante entendi o porquê do apelido Tremendão.
Em pouco mais de uma hora de entrevista, Erasmo confirma ser um autêntico vascaíno, com ótima memória e imensa satisfação em relembrar histórias ligadas ao clube. Começamos falando sobre a origem da sua paixão pelo Gigante da Colina. Ele, com sua fala tranquila, explica que isso aconteceu com a experiência que viveu aos 15 anos, ao avistar o ônibus com o time do Vasco chegando ao prédio onde morava. "Não acreditei que Vavá, Sabará, Bellini, Orlando e tantos outros estavam bem ali, na minha frente", lembra, com clareza. E olha que esse episódio aconteceu há mais de 50 anos.
Além da facilidade, impressiona a forma, de fato apaixonada, com que busca os "momentos vascaínos" registrados na memória. Um sutil franzir de testa - comum durante o nosso bate-papo - indica o momento em que procura lembrar-se de algo. E conseguiu, em todas as vezes. Inclusive, fazendo referências visuais com os objetos estrategicamente distribuídos por todo o escritório. "Com esta bola aqui eu bati, no Maracanã, um pênalti contra o Hélton (ex-goleiro do Vasco). Chutei forte e rasteiro, bem no cantinho direito, e ele não defendeu", conta, com um orgulhoso sorriso no rosto.
Ao final da entrevista, ficam duas certezas. A primeira é que, de mau, Erasmo só tem mesmo a fama; a segunda: o Gigante (da Colina) e o Tremendão são quase sinônimos. Têm tudo a ver. Em estatura, representatividade e sentimento, que nunca vai parar, bicho.
Desde quando você se conhece como vascaíno?
Me lembro da Copa de 1950, quando tinha 9 anos e soube que na Seleção havia oito jogadores do Vasco. Isso me chamou muito a atenção, me marcou muito. Além disso, achei a faixa transversal da camisa diferente e bem bonita, e comecei a gostar do time.
E quando foi que esse gostar evoluiu para a paixão? Ela é hereditária?
Não é hereditária, não, bicho. Na verdade, ninguém me influenciou. Onde eu morava só tinha um vizinho vascaíno. Todo mundo torcia, inclusive meus amigos, por outros times. Foi paixão natural, mesmo, que me fez adorar o Vasco do jeito que adoro. Agora, o que me levou a ficar definitivamente apaixonado por ele foi a experiência que vivi quando morava na Rua Professor Gabizo, na Tijuca, em frente à casa do dr. Valdir Luiz, que era médico do Vasco. Tinha voltado do Maracanã, após vencermos o Bangu por 2 a 1 e, de repente, vi da janela da minha casa o ônibus chegando com o time. Não acreditei que Vavá, Sabará, Bellini, Orlando e tantos outros estavam bem ali, na minha frente, entrando na casa do dr. Valdir. Foi uma imagem inesquecível.
O sentimento trouxe de volta o Vasco à Série A. Como é o sentimento do Erasmo pelo Gigante da Colina?
Ele nunca parou e nunca vai parar. Quando ouvi essa frase, eu logo disse que em momento algum houve a possibilidade de o sentimento parar aqui dentro, porque o Vasco foi o time que eu escolhi para chamar de meu!
Você chegou a jogar como zagueiro. Foi só em peladas ou por algum clube?
Jogava pelada e, depois, fui para o time do quartel. Cheguei a atuar no América (do Rio) como zagueiro, mas foi de farra. Não tinha a menor intenção de seguir carreira como atleta, até porque nunca fui um bom jogador. Depois, ainda bati uma bolinha pela equipe da (gravadora) Polygram, junto com outros artistas.
Você ainda frequenta os estádios?
Ainda vou, mas muito de vez em quando. Estava no Maracanã quando garantimos a volta à Série A, ao ganharmos do Juventude por 2 a 1. Não frequento tanto, porque gosto de me concentrar, de prestar atenção no jogo, o tempo todo. E no estádio, sempre acabo tendo de dar entrevistas, atender os fãs. Na verdade, hoje em dia prefiro ficar em casa e receber meus amigos. Fazemos um churrasco, tomamos nossa bebida e curtimos todos os lances com atenção.
Você condia sempre a mesma turma para assistir aos jogos? Qualquer um pode ficar para torcer?
Não! Aqui em casa, na hora dos jogos só entra vascaíno. Dos meus três filhos, o Alexandre (o primogênito Alexandre Pessoal, que acompanha a entrevista) é o único que assiste comigo. Os outros dois são flamenguistas. Quando nossos times se enfrentam, cada um assiste na sua casa. E tem mais: aqui, em dia de jogo, o telão é meu. ("A bola é minha!", grita Alexandre, brincando com o pai.) Quem quiser assistir a outros programas, tem de procurar uma televisão.
Erasmo é torcedor do tipo mais comedido, que comenta calmamente os lances, ou é daqueles que xinga juiz, grita nos momentos mais polêmicos?
Eu torço pra valer, mesmo. Grito, canto... No dia que garantimos a volta à Série A, estava todo mundo, eu, o Luiz Melodia, o Wagner Tiso, dentro do camarote do Maracanã, no ar condicionado. Nem quis saber. Nem quis saber, fui lá pra fora e comecei a cantar: Ôôôô... o campeão voltou, o campeão voltoooooou...'' Foi bonito pra caramba, bicho!
Que loucuras já fez como torcedor?
Loucura eu não me lembro de ter feito. Às vezes, saía alguma briga, coisa de época, de provocação das turmas da Tijuca. Mas ninguém ia pra brigar, não. De vez em quando, é que acontecia. Ahh... tem uma história, mas é da época em que eu morei em São Paulo e não tem a ver com o Vasco. Lá, faziam a maior pressão pra eu escolher algum time. Comecei a dizer que torcia pro Palmeiras - mas eu era Vasco! - e, quando ele foi campeão, dei dois tiros pro alto, no fundo do quintal, bicho. Os vizinhos deram queixa à política e eu acabei recebendo intimação pra prestar depoimento na delegacia. Lá fui eu, preocupado. Quando cheguei, o delegado estava me esperando com um monte de gente. Tinha salgadinhos, guaraná, uma verdadeira festa. Foi aí que ele disse: "Eu te intimei a vir aqui, pra que minha família pudesse te conhecer." E ainda tirou um monte de fotos comigo (gargalhadas).
Qual foi o momento mais marcante do Vasco para você?
Sem dúvida, foi o gol do Jorginho Carvoeiro, na final do Campeonato Brasileiro de 1974, contra o Cruzeiro, no Maracanã. Eu estava lá; foi lindo, maravilhoso! O Vasco atacava pro lado contrário em que eu estava. Por isso, não tinha muita noção de profundidade. O Alcir Portela fez um longo lançamento e eu vi a bola indo, indo, indo... (o olhar segue a trajetória imaginária da bola). Não dava pra saber se ela chegaria ou não no Carvoeiro, mas ele conseguiu dividir com o goleiro e chutar. Depois, vi a torcida começar a se levantar e vibrar. Aí, tive a certeza que tinha sido o gol do título.
E a sua reação... (Erasmo interrompe)
Ahhh! Espera aí... Não dá pra deixar de falar da inesquecível virada contra o Palmeiras, na final da (Copa) Mercosul (em 2000). Por causa dela, o Alexandre, meu único filho vascaíno, teve de cumprir a promessa de ficar quatro horas dentro da piscina aqui de casa, num dia frio, pois disse que seria uma hora para cada gol, se o Vasco virasse. Mas ele não se arrepende nem um pouco disso. (Alexandre concorda, com um sorriso de satisfação.)
E a sua reação, o seu sentimento, quando foi confirmado o rebaixamento? Você seguiu a linha da letra de A chuva ácida, do seu último CD ("Se você souber perder, vai saber ganhar, receber, sem chorar, sem nada pedir...")? A história do Vasco tem muito disso, de não pedir nada, só contar com os próprios vascaínos...
Essa letra, que é do Nelson Motta, tem muito a ver com aquele momento do Vasco, sim. Agora, a queda do clube não aconteceu em 2008. Ela já estava anunciada há muito tempo, bicho. Não foi uma surpresa pra mim, nem pra nenhum vascaíno. Quando o meu amigo Dinamite assumiu, fiz questão de ir lá. Na verdade, o Roberto Dinamite é o outro Roberto que eu tenho na minha vida. Não fui à posse pela amizade. Fui pelo Vasco, como torcedor que tinha a esperança de que estava assumindo uma nova mentalidade no clube. Uma gestão que pense grande!
A conquista do título era mais do que uma obrigação ou apenas consequência do compromentimento da equipe? O Vasco foi um time "tremendão" na Segundona?
Pelo nome e pelo histórico do clube, ele tinha obrigação de ganhar. Mas isso não garantia nada. O Roberto proporcionou ao Vasco a união de um grupo heroico, que tinha um excelente técnico. Isso contagiou os jogadores, que se superaram.
Qual deve ser a prioridade do Vasco em 2010?
Eu queria que o Vasco tivesse como meta a Copa Libertadores. Agora, o fundamental é escolher bem os profissionais e encarar cada etapa como um novo desafio. É muito importante o time conquistar títulos, porque isso ajuda a trazer novos torcedores e a manter os atuais, principalmente as crianças. Quando a criança não recebe influência em casa para torcer por determinado time, acaba escolhendo o que mais ganha, o que tem mais títulos.
Que mensagem você deixa para os vascaínos, neste ano que acaba de chegar?
O meu sentimento nunca parou. E nunca vai parar. Por isso, eu digo: continuem amando a cruz-de-malta, que é o verdadiero formato de um coração vascaíno.
DETALHES NADA PEQUENOS
É mais do que um quarto ou um simples escritório. No ambiente de aproximadamente 30 metros quadrados, com ampla vista para um belo jardim, Erasmo consegue unir duas de suas grandes paixões: a música e o Vasco. Gravadores, amplificadores, CDs, LPs, piano, violões e uma rara guitarra Gretsch dividem o espaço, harmoniosamente, com muitos objetos do Gigante da Colina: flâmulas, bandeiras, pôsteres e fotos. "Esta aqui, é a do diploma autografado do 500º gol do Roberto Dinamite", mostra, feliz da vida.
Erasmo também faz questão de exibir o recorte de uma matéria do Jornal dos Sports, datada de 5 de novembro de 1974. Nela, é contada a história do dia em que ele pediu a camisa 5 de Alcir Portela, que havia saído de campo contundido. Mas por determinação de Pai Santana, que acumulava funções de massagista e pai de santo, ela só seria entregue depois de lavada. O que importa é que o Tremendão conseguiu o seu "troféu".
_______________________________________________________ |