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Eu sonhava com o Vasco - Por Martinho da Vila
Eu sonhava com o Vasco - Por Martinho da Vila

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Como a maioria dos garotos vascaínos foram influenciados pelos pais, tios ou avós, eu também ganhei influência do meu padrinho de batismo, Sebastião Rosa, um português boa praça.

Quando os meninos atingem a idade entre quatro e oito anos, vão se libertando das influências impostas e passam a ser fãs dos grandes ídolos da bola do seu tempo. Naturalmente, passam a torcer pelo time que consegue grandes vitórias no seu período de formação.

Quando eu estava com a tal idade o Vasco era o maioral:

- Campeão de Torneios Relâmpagos de quarenta e quatro e quarenta e cinco... Invicto em quarenta e sete. Ondino Vieira comandou o "expresso da vitória", formado só por craques de primeira grandeza, tendo Ademir como artilheiro.

Eu sonhava com o Vasco. Nos meus sonhos eu era um locutor esportivo e ao mesmo tempo um jogador em campo. Eu jogava e irradiava o jogo:

- Está em campo a equipe do Vasco da Gama com Barbosa, Augusto e Rafaneli; Eli, Danilo, Jorge ... Atenção! Já foi dada a saída. Bola com Friaça. Friaça a Maneca que dribla um, dois e centra para Ipojucan que magistralmente lança Chico lá na ponta esquerda. Chico cruza. Bola com Ademir. Ademir pra mim. Gooool!

A minha Vascainidade fortaleceu-se na adolescência, com as conquistas de vários campeonatos e campanhas internacionais. Fomos campeões sulamericanos.

Aos meus vinte anos, li um discurso alusivo aos trabalhadores pronunciado pelo então, já falecido, Presidente Getúlio Dorneles Vargas, por ocasião da assinatura da Consolidação das Leis Trabalhistas, cujo Decreto foi assinado no dia primeiro de maio de quarenta, no Campo do Vasco. Passei então a me interessar pela história do nosso clube e constatei que o Estádio de São Januário foi construído sem nenhuma colaboração financeira do Governo Federal e nem do Estadual, mas sim, através de uma campanha popular em que donos de bares, garçons, condutores de bonde, funcionários públicos, gente das mais variadas condições sociais, além de pequenos e grandes comerciantes, assinaram a lista de contribuintes para a construção do campo.

Ter um estádio de alto nível foi condição exigida pela discriminatória Liga Metropolitana que congregava os clubes da elite e que não queria admitir o Vasco por ter negros no seu plantel.

Em mil novecentos e sessenta o carnavalesco Fernando Pamplona fez renascer a figura de Zumbi dos Palmares num desfile do Salgueiro, fazendo despertar a consciência negra e eu fiquei orgulhoso de ser vascaíno quando o escritor Sérgio Cabral me chamou a atenção para o fato de que o Vasco, foi o clube que teve a coragem de dar uma grande contribuição à luta contra os preconceitos ao não ceder às pressões e manter os negros como atletas e frequentadores da sede social.

Bem. Aí estão os meus motivos claros e razões de sobra para ser cruzmaltino. Mas, no fundo, eu acho que escolhi ser Vasco ao me sensibilizar pela beleza do seu escudo e continuei porque gosto da imensa torcida vascaína, onde predoninantemente só tem gente boa.

 


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