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Obrigado, Deuses do Futebol - Por Sérgio Cabral
Obrigado, Deuses do Futebol - Por Sérgio Cabral

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Em 2000, comemorarei meus 56 anos de torcedor do Vasco. Eis uma dádiva que só posso atribuir aos deuses do futebol. Afinal, era uma criança desprovida de qualquer motivo para ser vascaíno: meu pai, que era torcedor do Fluminense morreu quando eu tinha três anos de idade, e minha mãe – vejam vocês! – torce pelo Flamengo e nunca falou de futebol comigo. Meu tio mais próximo torce até hoje pelo São Cristóvão. Recém chegado de Sergipe, onde vivi dois anos depois da morte do meu pai, não tinha nem amigos para me ajudar a escolher um clube.

Alem disso, o primeiro jogo que acompanhei inteiro pelo rádio foi aquele em que o Flamengo ganhou o título de 1944, graças a um gol em que Valido se apoiou nos ombros do nosso lateral Argemiro. Mas os deuses do futebol me iluminaram tanto que permaneci vascaíno e, graças a essa proteção divina, tive uma infância e uma adolescência invejáveis: campeão invicto de 1945, 47 e 49, campeão de 1950, 52 e 56, campeão sul-americano invicto em 1948, base das seleções do Rio de Janeiro e do Brasil, era uma conquista atrás da outra, sem falar em outras modalidades esportivas, como o remo e o atletismo, que deram tantas glórias ao meu Vasco.

Portanto, fui muito bem criado em matéria de clube esportivo, até porque a felicidade não parou na infância e na adolescência. Continuou e, pelo jeito, continuará por muitos e muitos anos, tantas são as glórias deste fim de século. Mas os 56 anos de torcida pelo Vasco me levam inevitavelmente ao passado e, particularmente, aos ídolos da infância, como Ademir, Ipojucan, Barbosa, Danilo, Maneca e tantos outros. Tive um encontro com Barbosa no programa do Armando Nogueira e contei que ele é o responsável pela maior emoção da minha vida de torcedor. Pulo de parágrafo para contar.

Madureira x Vasco no estádio de Conselheiro Galvão, com as arquibancadas lotadas e eu lá com os meus 11, 12 anos de idade. De repente, uma briga entre os torcedores provocou uma grande correria que me obrigou a – não me perguntem como fui capaz de tal façanha – pular o alambrado e cair dentro do campo. Ao me ver, um guarda municipal tentou devolver-me para a arquibancada, mas fugi e, ao passar atrás do gol de Barbosa ele disse para o policial:

- Pode deixar o garoto aqui.

O guarda não quis acreditar no que ouvira:

- Você se responsabiliza por ele?

- Me responsabilizo – afirmou com segurança o maior goleiro da história do Brasil.

E, assim, assisti ao jogo, sentado atrás do gol, ao lado de alguns fotógrafos e radialistas. De vez em quando, Barbosa mandava a bola para a frente e ia lá atrás afagar minha cabeça. Era maravilhoso! Quando terminou a partida, reencontrei meus amigos e fomos a pé para o nosso bairro, Cavalcante, uma longa caminhada que me permitiu deixá-los morrendo de inveja ao contar algumas das melhores mentiras que já contei. Não dava pra desmentir. Afinal, eles me viram sentado atrás do gol. Disse a eles que havia sido convidado para treinar no Vasco, que teria direito a ver todos os jogos do Vasco naquele local, mentiras que, infelizmente, ficariam desmoralizadas poucos dias depois, pois não treinei no Vasco e nunca mais vi um jogo atrás do gol. Nem mesmo depois de me tornar jornalista.

Falei de Barbosa e o espaço ficou pequeno para falar dos outros. Até porque de ídolo a gente tem muito a falar. O fato de ter iniciado cedo no jornalismo me fez conhecer pessoalmente esses ídolos. E descobri que nada desfaz a idolatria. Nunca fiquei à vontade com os meus ídolos, mesmo aqueles que se tornaram amigos queridos, como Ademir e outro que surgiria muitos anos depois, Roberto Dinamite. Nos bate papos mais descontraídos, sempre fui tentado a tocar neles para comprovar que era verdade, que me tornara amigo deles.

Enfim, o que quero mesmo é agradecer aos deuses do futebol pelo privilégio de ser vascaíno.

 


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