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Meus 10 anos como jogador do Vasco da Gama foram uma época maravilhosa. Eu era um garoto; jogava em um time de segunda divisão da cidade de São João de Boa Vista, interior paulista. O Vasco era formado por um grupo de grandes jogadores da seleção brasileira da década de 50, como Danilo, Ademir, Ipojucan, Chico, Augusto e Barbosa. Pagaram uma fortuna para me trazer para São Januário – quinhentos mil cruzeiros – sem que tivessem me visto jogar, só pelo que os jornais diziam.
A minha expectativa era sair do interior e ir para um time da capital, como Palmeiras, que estava interessado em mim. A mudança para o Vasco em 1951 foi um sonho que eu não imaginava realizar tão cedo. Cheguei em São Januário com um misto de euforia e expectativa – eu era um caipira chegando na cidade grande.
Meu início não foi bom. Tive um período de adaptação difícil; fui morar em São Januário com os jogadores solteiros que não eram do Rio. Tudo era diferente, até a alimentação, com feijão preto e carne seca. Eu treinava, na maioria das vezes, de manhã, almoçava no estádio e à tarde ia ao cinema. Era uma vida regrada: dormia cedo, treinava muito e me cuidava, pois tinha tendência para aumentar o peso.
No meu primeiro treino não achei a bola de jeito nenhum. Aquela coisa de adaptação, todos os jornais anunciando o menino que custara uma fortuna e as arquibancadas lotadas me afobaram. Se fosse um teste, me colocavam de volta no primeiro avião.
Quando fui contratado, o técnico era o Oto Glória, que foi logo para Portugal, e para substituí-lo veio o Gentil Cardoso, que não ia muito comigo. Eu era lateral direito e o Vasco precisava de alguém para substituir o Augusto, capitão da seleção brasileira, que estava de saída. Sorte a minha que, logo em seguida, em 53m veio o Flávio Costa, que sempre teve preferência por zagueiros que não brincavam em serviço. Os clássicos, ele não admitia. Abria precedente apenas para um, o Domingos da Guia, que era um fora de série. Ele sempre dizia, “aqui dentro é pra defender, preparar a jogada é para o meio de campo. A função do zagueiro de área é evitar o gol. Eu só aceitei um que saía jogando, o Domingos da Guia. Só este eu engoli”. Para mim estava ótimo; este era meu estilo de jogo.
Com o apoio do Flávio Costa a coisa mudou muito. Um dia, ele me chamou para conversar e disse, “Você tem bom cabeceio, boa estatura. O meio da zaga é o melhor lugar para você jogar”. Assim eu me firmei.
Foram muitos títulos e a resposta da torcida vascaína era maravilhosa. Mesmo na derrota, ela nos apoiava. Comigo sempre foi muito generosa, um casamento perfeito. Tenho muitas saudades desta época, por causa desse relacionamento com os vascaínos e com a imprensa, onde fiz muitos amigos.
Com a minha saída para São Paulo perdi um pouco do contato com o clube, mas sempre assisto os seus jogos. Aproveito para mandar um grande abraço para todo Vasco e sua imensa torcida. Muitas vitórias.
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