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Entrevistado: Fabio Fernandes

Quem é: Publicitário e Vice-Presidente de Marketing

Data: 27/05/2009

 

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SempreVasco - Comente sobre o seu passado como torcedor anônimo do Vasco. Como surgiu sua paixão pelo Vasco? 

Fabio Fernandes - Anônimo, o escambau: não existe vascaíno anônimo. Todo vascaíno nasce, vive e morre famoso. (risos).  Eu nasci em uma família de vascaínos. Meu avô nasceu em agosto de 1898, ano da fundação do Vasco. Era sócio remido do Clube e tinha uma carteira de sócio, toda em couro, que exercia um fascínio absoluto em mim. Minha mãe é vascaína e eu não me lembro de ter amado alguma coisa mais do que o Vasco quando eu era menino.

 

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SempreVasco -  Qual o primeiro jogo do Vasco que você assistiu?

Fabio Fernandes -  O meu primeiro jogo do Vasco foi no Maracanã, um jogo histórico que acaba de completar 40 anos, segundo eu li há poucos dias - ou seja, parece que eu estou ficando velho, né? Foi um jogo contra o Bangu que se tornou famoso porque o goleiro do Vasco, Valdir, logo após praticar uma inacreditável defesa, num chute do Dé, cara a cara, acabou atirando a bola contra o próprio gol do Vasco na hora em que tentava repô-la em jogo. A partida terminou em 1 a 1 e a cena do Valdir ajoelhado no gramado, junto à risca da pequena área, mesmo após o apito de encerramento do primeiro tempo, pelo juiz, é um filme claro e nítido na minha memória até hoje. 
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SempreVasco -  Qual o jogo do Vasco que mais lhe marcou?

Fabio Fernandes - Tem tantos jogos marcantes na minha vida. Alguns simplesmente porque estão arquivados na minha cabeça, sem nenhuma razão aparente a não ser pelo fato de que eu estava lá e, estar lá, em si já era uma razão para uma felicidade plena.

 

Outros são memoráveis pelo que eles representaram mesmo. Sei lá quais citar. Vasco e Botafogo, com gol do Roberto aos 45 do segundo tempo dando um lençol que despenteou o cabelo do Osmar, um dos gols mais lindos de todos os tempos na história do futebol mundial, a final de 1982 contra o Flamengo em que a torcida cantou no final "chora, não vou ligar, chegou a hora, vais me pagar, pode chorar, pode chorar"; o jogo da final de 1976, contra a "máquina" do Fluminense, onde o Vasco perdia por 2 a 0, perdemos o Dé por contusão logo aos 16 minutos do primeiro tempo, tomamos um gol logo em seguida, outro, do Carlos Alberto Pintinho no início do segundo tempo e ainda assim a torcida mais linda do universo jamais parou de cantar - inclusive durante todo o intervalo do jogo (nunca vi isso na minha vida, em nenhuma torcida do mundo) - o Roberto marcou lá pelos 30 do segundo tempo e um desconhecido lateral direito, de nome Toninho, baiano e muito parecido fisicamente com o Toninho, também lateral que atuava pelo Fluminense e pela Seleção, entrou no lugar do Gaúcho aos 41 e, aos 44, disparou um chute da intermediaria e a bola escorregadia por conta de chuva enganou o goleiro Renato, o Aranha Negra. Foi uma loucura total. Na nova saída dada pelo Fluminense, um contra-ataque do Vasco e não fosse uma violentissima falta do Edinho - não punida com cartão pelo juiz - e o Roberto virava o jogo entrando com bola e tudo. Bom, acho que essa resposta não acaba mais né? 

 

Ainda tem Vasco 4 a 3 no Palmeiras, Vasco 2 a 1 no Barcelona de Guayaquil, Vasco e Flamengo, 4 a 1 com show de Juninho e Edmundo, os dois 5 a 1, meu Deus, isso é inesquecível mesmo... E, por último, senão eu vou contar todos os jogos da história do Vasco, o inacreditável 5 a 2 com 5 gols do Roberto no dia da sua reestréia pelo Vasco. Inacreditável. Eu que chorei por mais de um mês ouvindo no rádio as notícias sobre uma possível volta do meu ídolo ao Brasil, mas para... o Flamengo, chorava de emoção e de uma alegria indescritível ao ver a iluminação com que ele entrou para marcar para sempre seu nome na história do Clube. Ele chutou seis vezes a gol naquele jogo. A sexta foi no travessão. Recentemente eu disse a ele que eu não poderia deixar de atender ao convite dele, por conta dos mais de 700 gols que ele marcou pra mim. Só agora estou me tocando de que ele também me deve muito sofrimento por aqueles dias de desespero imaginando-o vestindo a camisa do urubu...

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SempreVasco -  Os vascaínos são milhões de apaixonados, público consumidor desejado por qualquer empresa do mundo. Como capitalizar essa vantagem em nosso favor e quais são as causas do fracasso do clube nesse setor?

Fabio Fernandes - Acho que a razão do pouco sucesso do Vasco até o atual momento nesse setor é não ter pensado exatamente como o início do enunciado da pergunta. Acho que durante um bom tempo, por razões que não interessa mais aprofundarmos, o Vasco não se deu ao respeito, não deu a si próprio seu real valor. Fugiu, premeditadamente, de todo e qualquer caminho que o levasse em direção ao futuro.

 

Uma coisa é respeitar e procurar não ferir suas tradições; uma outra é fazer tudo sempre igual, à título de um falacioso comprometimento dessas mesmas tradições, estagnando o Clube, negando-se a evoluir, enraizando-se num terreno já milhões de vezes percorrido e negligenciando-se de enxergar que o mundo gira em volta de nós. E que há, sim, muitas ferramentas modernas, pensamentos novos que não nos desconectam de nosso passado e do nosso orgulho por ele, mas ao mesmo tempo nos provisionam e nos catapultam para o futuro, num mundo cada vez mais rápido, dinâmico, exigente e competitivo.

 

Esse advento da escolha do Maracanã para o jogo contra o Corinthians é mais um capítulo dessa história. E o torcedor bem intencionado, jovem até, às vezes, se prende a determinadas zonas de conforto que só nos empurram para baixo, não nos deixam crescer, não nos tiram de uma sorrateira área movediça - que, na minha opinião, sempre será mais perigosa e presente tanto mais quanto nós não aceitarmos inovar, buscar o avanço, respirar melhor. Não há mudança que não seja dolorida. Na verdade, se não houver dor, não terá sido mudança.

 

O Vasco se acostumou a jogar em São Januário. Os torcedores do Vasco (18 mil por jogo, para dizer a verdade, entre 18 milhões) se habituaram a ir aos jogos em São Januário. Ótimo. O Vasco nunca vai abandonar São Januário. Mas ele não pode abandonar a maior parte de sua torcida por causa de São Januário. O Vasco não é o único clube do Rio que tem um estádio. O Vasco é o único que tem dois estádios. Porque o Maracanã também tem que ser nosso. Nós não podemos jogar lá como visitantes. O Maracanã é tão a nossa casa quanto o é de qualquer outro time do Rio. Por isso, jogar no Maracanã ou em São Januário, não deveria mais ser uma questão sobre onde atuamos melhor, onde nossa torcida exerce mais pressão ou mais uma série de artifícios até anti-desportivos aos quais uma parcela da torcida do Vasco, por hábito, ainda considera normais - e que eu acho um atraso completo num ambiente que deveria ser cada vez mais ético e profissional.

 

São Januário ou Maracanã deveriam - e serão - opções que o Vasco tem a seu dispor e que devem ser exercidas de acordo com o apelo do espetáculo, do apoio da torcida, da demanda dos apaixonados que querem assistir ao Vasco e que, se mal cabem no Maracanã, o que dirá num estádio de menores proporções, que sempre será adequado a jogos importantes, mas sem tanto apelo de comparecimento de público. Jogar só em São Januário é sinalizar para os nossos torcedores que 18 mil (15 mil, se considerarmos os ingressos reservados aos visitantes) são um número suficiente de torcedores que queremos como testemunhas presenciais em nossos jogos. É dizer para toda a massa que ficou lá fora, que basta, podem ir para casa assistir no PPV ou no vídeo tape da tv aberta a um jogo em que só esses 15 mil de fato são bem vindos. Que tipo de compromisso e de reciprocidade podemos esperar da maior parte da nossa torcida? Que hábito de ir aos nossos jogos nós estamos despertando nos nossos seguidores? Que tamanho de Clube e de torcida nós estamos projetando para o futuro do nosso Vasco?

 

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SempreVasco - Na nossa opinião, o vascaíno é um torcedor único, porque além dos títulos, ele tem na sua história social e cultural um diferencial que ninguém tem. Como explorar isso, o orgulho de ser mais do que um clube de futebol?

 

Fabio Fernandes - Todos os contatos, todas as experiências dos nossos torcedores com o Vasco devem ser recompensadoras. Temos que ter pelo vascaíno comum, o torcedor de verdade, o aficionado pelo Vasco o respeito que qualquer empresa tem que ter com os seus consumidores se ela quiser sobreviver nesse tal mercado competitivo a que eu me referi antes. Torcer, se doar por um clube é um ato de amor. E muitas vezes, de sofrimento. Esse sofrimento nunca deveria se estender às eventuais (corriqueiras, atualmente) dificuldades que esse torcedor tem para declarar seu amor ao Clube. Isso não é um "privilégio" do Vasco. É na verdade um defeito arraigado em um sem número de instituições brasileiras que ainda não se dão conta da necessidade de prestar serviços de alto nível aos cidadãos. É nisso que nós estamos focados. É desse espírito que nós comungamos nesses dias atuais e vindouros do Vasco. E é pelo e para o torcedor que o Vasco vai se voltar definitivamente daqui por diante.

 

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SempreVasco - São possíveis ações de marketing que viabilizem o esporte amador do clube, cobrindo totalmente o custo de uma modalidade esportiva vencedora? Isso é utopia ou o esporte amador de alto nível pode ser auto-sustentado?

Fabio Fernandes - Acredito que alguns esportes amadores - mais que outros - podem ser auto-sustentados. Mas ainda não tenho elementos para falar especificamente sobre isso.

O que importa é que as possibilidades de um clube de futebol, como o Vasco, aumentam em todas as áreas quanto mais o seu futebol, a sua relação com a torcida, os recursos que  em nosso país mais facilmente chegam através do futebol, puder estar mais saudável, mais organizado, mais vencedor e mais empolgante para o torcedor. Um Vasco forte no futebol poderá ser um Vasco mais forte no Remo. Infelizmente o inverso não é verdadeiro.

 

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SempreVasco - No passado nós tivemos dezenas de milhares de sócios pagantes, grande parte deles compostos de idealistas, como foi comprovado em campanhas associativas com motes como a construção de São Januário e da Sede da Lagoa. É possível resgatar esse idealismo ou os tempos são outros?  

 

 

Fabio Fernandes - Vocês devem estar acompanhando o nosso novo programa de captação de sócios, batizado como “O Vasco É Meu”. Nesses seis dias de programa, que se completam hoje, nós já resgatamos 19 mil novos sócios. Isso dá uma média próxima de 3,5 mil novos sócios por dia. Em sua grande maioria optando pelo plano de sócio Geral, que é um intermediário entre o sócio Proprietário - que exige um desembolso mais alto - e o Torcedor Vascaíno que é a modalidade criada para atender ao chamado sócio Torcedor. Isso tem um significado gigantesco, eu diria digno das histórias mais bonitas do Vasco. A mobilização que estamos testemunhando, o amor que esse torcedor tem demonstrado com essa atitude, tem sido algo muito especial e muito comovente.

 

Nossa meta, como todos sabem, são 100 mil sócios. 100 mil. E o que é mais bonito disso tudo? É que ninguém me chamou de louco. Ninguém disse que isso era um desvario - claro, talvez alguns torcedores de outros clubes assim prefiram já que, de fato, alcançar esse número seria uma demonstração de força e de poder que eles jamais gostariam de ver no Vasco. E nós vamos chegar lá. O Vascaíno que não se associou ainda vai fazê-lo em muito, muito breve.

 

O Vascaíno de verdade não vai deixar uma meta do Vasco não ser atingida. Primeiro porque ele sabe o quanto isso será importante para o reerguimento do nosso Clube - e aí eu falo de uma maneira bastante ampla. Segundo porque ele não vai aceitar ver o Vasco como motivo de chacota dos rivais, caso essa meta não se mostre factível. O Vasco é gigante, como é gigante e sem igual o amor dessa torcida, que é a mais linda do mundo, pelo Vasco. E eu sei, tenho a mesma convicção de que eu próprio poderia me doar mais ao Vasco quando aceitei esse delicioso desafio, que ele, você que está aí me lendo, você que está reproduzindo e enviando dezenas de e-mails sobre essa entrevista para os seus amigos, eu sei que você e eles não vão dar o braço a torcer.

 

Não vão esmorecer, não vão deixar a maior e mais sensível oportunidade de ajudar o Vasco a voltar a crescer, como sempre foi a sua vocação contra tudo e contra todos desde o início da nossa história. 100 mil sócios vão nos ajudar a contratar ídolos, vão nos ajudar a aumentar e modernizar São Januário. Vão nos dar o direito de ser aquilo ao que sempre estivemos destinados: o maior, mais bonito, mais vencedor e mais impressionante clube do Brasil.

 

 

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